quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Lucy e a máquina de escrever.

Colocou os sapatos e saiu como se a chuva que caía lá fora não fosse significativamente incomoda. E até que não era, não para Lucy. Seu casaco de estrelas era demasiado confortável e ainda lhe parecia como o céu de sonhos que cabia dentro de si; E por que não usá-lo também como capa de chuva? Não se importava que fosse de tecido e que lhe deixasse encharcada. Tinha um objetivo e mais do que isso, tinha um desejo e iria realizá-lo custasse o que fosse. Se havia uma coisa que nunca iriam lhe tirar era a vontade que possuía de realizar todos os seus desejos, por mais difíceis que fossem e por mais demorados também. No caminho passou na pequena banca e comprou um saquinho de amoras, teve o cuidado de escolher as mais vermelhas e apetitosas. Levou-nas com todo o cuidado, como se fossem preciosas. E eram. Sentia felicidade só por tê-las ali consigo, mesmo que fosse algo simples. Continuou seu caminho até a pequena loja de leitura, seu lugar favorito no mundo todo acreditara.

Caminhava distraída até o seu destino quando ao dobrar a esquina da Rua Lüneburg, deparou-se com algo realmente extraordinário, era a coisa mais linda que já havia visto. Deixou com que o saquinho de amoras caísse sobre o chão e nem sequer reparou em seu movimento, aproximou-se da grande vitrina de vidro e colou seu rosto na mesma, vislumbrava aquele objeto como se fosse a unica coisa existente ali e naquele momento era. Após alguns minutos balançou a cabeça brevemente até voltar a si e percebeu a falta das amoras, avistou-nas ao chão e rapidamente pegou o saquinho, envolvendo-o nos braços; Enfiou a mão no bolso e pegou todo o dinheiro que tinha, sabia que era para comprar os livros, mas não se importava; Havia uma prioridade maior agora. Respirou fundo e logo adentrou a loja, era dia de promoção e aquela preciosidade toda iria ser sua. Ah, iria mesmo. Aproximou-se do balcão e fez o pedido para um moço baixinho, gordo e com um bigode branco. Recebeu apenas um aceno de cabeça, enquanto percorria os movimentos do senhor com um sorriso nos lábios; Ele pegou o objeto e o colocou dentro de sua caixa, logo entregando-na para a menina que saiu da loja com o maior sorriso que lhe cabia.

Ela foi rumo à sua casa, cantarolava algo como Beatles internamente, em um dos braços havia uma caixa e no outro um saquinho de amoras bem vermelhas. Chegou na Rua Schlump e parou em frente ao número 9, soltou um suspiro e subiu os degraus, ainda estava em êxtase. Adentrou a casa e foi direto ao quarto, colocou a caixa sobre a escrivaninha e deixou as amoras ao lado; Sentou-se sobre o banco e abriu a tampa da caixa, aproximou os dedos e tocou cada tecla, observando e contornando as letras quando possível. Sorriu vitoriosa. A máquina de escrever que agora possuíra era a coisa mais linda nunca vista antes, e ela tinha tudo o que precisava. Tinha amoras vermelhas e as palavras. Passou o dia todo escrevendo palavras aleatórias em folhas, só para sentir o poder que agora sentia que possuía. Era o poder das palavras e Lucy sabia, ela não tinha medo em usá-las.



Dedico esse pequeno texto à
Lana Pikachu, @littlelovegood. (http://canseidefalsasverdades.blogspot.com)
porque ao ler, consegui encaixá-la direitinho na história.

Um comentário:

Lana disse...

Que postagem mais L-I-N-D-A Clara! Nunca ninguém havia dedicado um texto pra mim. Caramba! Não tenho nem palavras para expressar minha felicidade. Nem há palavras que descrevam como eu fiquei feliz em saber que você me vê desse modo.

E mais do que um parabéns, eu lhe devo um obrigado.