domingo, 8 de novembro de 2015
sorria e acene
certa vez me falaram que o melhor a se fazer quando se quer chorar é chorar no banho, ligar o chuveiro e deixar a água cair, se misturando com as lágrimas. desde que escutei isso é assim que eu faço. me tranco no banho durante horas e choro. choro como se só eu existisse e o mundo lá fora não fizesse parte de nada. hoje o fiz. não chorava desse jeito desde quando me levaram ela. eu acabo camuflando meus sentimentos. aprendi isso bem cedo e sempre funcionou. eles dizem que eu estou bem. é só sorrir e acenar. sorria e acene. os olhos vermelhos é culpa da maquiagem. do rímel. alergia. eu monto frases feitas na minha cabeça e repito como se fosse um robô. está tudo bem. sorria e acene. meus melhores amigos são os remédios e sem eles sou como um vulcão em erupção. nada em volta se salva. nada. vou a terapia e cuspo tudo o que me vem a cabeça e ela só acena que sim ou que não. eu sou um total descontrole. mas eu sorrio e aceno e então fica tudo bem. desde que ela se foi é como se eu não pertencesse mais a lugar nenhum. não me pertenço. não sou. não sei quem eu sou. pra onde eu vou. o que eu vou fazer. minha vida não pertence mais a mim. as vezes quero voltar a fazer coisas que eu parei, como fumar. me bater ou me machucar só pra ver se ainda sinto algo, se ainda estou viva. sã eu sei que não estou. só sorrio e aceno. um dia eu vou explodir e meus cacos vão se espalhar por aí. ninguém vai juntar, porque quem tinha esse poder já se foi e não pode mais voltar.
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