
(Apesar da música citada no texto, ele foi escrito ao som de
Copeland - California.)
Por vezes me pego olhando lá para trás e vejo o quanto podemos errar quando queremos alguma coisa demasiadamente. Já sonhei ter me arrependido de não ter te chamado para subir aquela noite, estávamos tão completamente bêbadas que essa seria a desculpa perfeita para um erro sem um pingo de justificação. Sim, sem justificação. Afinal, não precisaríamos de desculpas se isso fosse realmente um desejo nosso, nos entregar naquela noite. Talvez não tivéssemos nem tomado todas aquelas taças e mais taças de vinhos a fim de apenas nos entregarmos a uma pequena conversa na calada da noite. O que mais justificaria um erro cheio de outros erros a mais? Acredito bem lá no fundo de mim que não queríamos nada daquilo que pensávamos. Já começamos errando em pensamentos. Te pedi que respirasse fundo, se lembra? Que tentasse pelo menos sentir os seus sentidos, que deixasse toda aquela maresia pesada tomar conta das suas narinas e de ti por completo adentro. Era pura tolice todo aquele papo de é-isso-que-queremos-senão-não-estaríamos-pensando. Pensamos porque nos deixamos pensar, mas isso não quer dizer que deveríamos ter feito. Me entende? Acho que não, porque eu mesma já me perdi nos devaneios embaraçados nessa minha cuca confusa. Quando você disse que era tudo o que você queria, estar ali comigo naquele momento, naquela nossa data e eu ri.
- Por que ri?
- Porque acho graça no modo como você só fala as coisas quando bebe.
- Posso falar sem beber também.
- E por que nunca falou antes?
- Porque nunca me deu a oportunidade.
Era sempre esse seu jeito de me fazer calar, de bloquear meus pensamentos com apenas uma frase simples e ridícula. Sempre eu, também, que te privava das palavras por puro medo de me entregar demais e deixar com que tudo fosse como sempre foi antes. Dor, era esse o meu medo e aí me deixava arrepender mais lá para frente. Era puro medo, menina.
Na verdade, o que eu queria mesmo era que você tivesse subido naquela noite, que tivesse sentado bem aqui nesse sofá onde me sento agora para escrever todas essas palavras sem cabimento. Sei que iríamos rir a noite toda e que eu iria vê-la seguindo até o toca-discos e colocar alguma coisa como Beatles, talvez. As vezes penso que te conheço tanto e que me conheço de menos. Podia ter deixado o barquinho fluir, como aquela tua frase na tarde do parque.
- Apenas deixe fluir, meu bem. Deixe fluir.
Sempre falei de arrependimentos e agora me arrependo. Não deixei fluir, o barco não seguiu a brisa e hoje estou aqui, só. Eu, a garrafa de vinho e o toca-discos com uma frase baixa penetrando bem lá no fundo do fundo "Love is all we need, she loves you." Goles e mais goles de vinho, é tudo o que eu preciso e terei uma bela dose de amnésia. Queria que por um momento tudo fosse verdade, que eu me esquecesse mesmo de tudo isso e que pela manhã tudo não passasse de uma mentira. Apenas fechei os olhos e me deixei levar pelo inconsciente. Se fugir é para quem tem medo, eu fujo por ser forte.
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